São Francisco de Assis, afresco de Cimabue (c. 1280), na Basílica Inferior de Assis.
Na noite de 3 de outubro de 1226, um homem pobre, quase cego e com as chagas de Cristo nas mãos pediu aos irmãos que o deitassem nu sobre a terra da Porciúncula, junto a Assis. Rezou um salmo, acolheu a "irmã morte" e entregou a vida ao Senhor que tanto amara. Oito séculos depois, a Igreja inteira volta os olhos para ele. Para marcar a data, o Papa Leão XIV concedeu um Ano Jubilar Franciscano, de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027. Isso quer dizer que estamos vivendo agora um tempo de graça ligado a este santo, e não apenas recordando uma data.
Um jovem rico que queria ser cavaleiro
Francisco nasceu em Assis, na Úmbria, entre 1181 e 1182, filho de um próspero comerciante de tecidos. Era alegre, festeiro e líder natural entre os jovens da cidade, e sonhava com a glória militar. A guerra contra Perúgia, um ano de prisão e uma doença longa começaram a mudar esse rumo.
Dois encontros marcaram sua conversão. O primeiro foi com um leproso: Francisco, que tinha horror daqueles doentes, desceu do cavalo e beijou-lhe a mão. Anos depois, escreveria que aquilo que antes lhe parecia amargo se converteu em doçura. O segundo foi na igrejinha arruinada de São Damião, onde ouviu do Crucifixo: "Vai, Francisco, e repara a minha Igreja, que está em ruínas." No início, ele entendeu a ordem ao pé da letra e começou a assentar pedras. Só aos poucos percebeu que Deus queria reconstruir por meio dele algo muito maior do que uma capela.
Diante do bispo e de toda a cidade, devolveu ao pai até as roupas do corpo, para depender apenas do "Pai nosso que estais nos céus". Em 1209, o Papa Inocêncio III aprovou a sua forma de vida, que era simplesmente o Evangelho levado a sério. Vieram os irmãos, veio Santa Clara, veio a multidão de leigos que quiseram viver o mesmo espírito no mundo. Em 1219, em plena Cruzada, atravessou desarmado as linhas de guerra no Egito para falar de Cristo ao sultão. No Natal de 1223, em Greccio, montou o primeiro presépio vivo. Em 1224, no Monte Alverne, recebeu os estigmas da Paixão. Em 1225, quase cego, compôs o Cântico do Irmão Sol.
O Francisco real é mais exigente e mais belo
Poucos santos são tão amados, e tão mal compreendidos. Com o tempo, surgiu um "Francisco de estampa", suave e genérico, que cabe em qualquer causa. O santo real é outro.
- Ele não era um rebelde contra a Igreja. Foi a Roma pedir a aprovação do Papa, prometeu-lhe obediência e reverenciava os sacerdotes por causa da Eucaristia. Como lembrou Bento XVI, Francisco renovou a Igreja por dentro, em plena comunhão com ela.
- Ele não era, antes de tudo, um ecologista. Amava as criaturas porque via nelas uma linguagem de Deus. Sua harmonia com a criação não era romantismo, mas fruto de uma entrega total a Deus, pelo sacrifício e pelo amor.
- Sua pobreza não era protesto social. Era amor a Cristo pobre e, por isso mesmo, liberdade: não ser possuído pelas coisas para poder amar a Deus e aos outros. Essa pobreza de espírito vale para qualquer cristão, em qualquer vocação.
- Duas frases famosas não são dele. A "Oração da Paz" ("Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz") apareceu anônima numa revista francesa em 1912. E o "pregue sempre; se necessário, use palavras" também não está nos seus escritos. Francisco pregava, e muito; o que pediu aos irmãos foi que pregassem também pelas obras.
O que Francisco ensina a quem lidera
Francisco nunca quis ser chefe. Chamou sua ordem de "Frades Menores", deu aos superiores o nome de "ministros", isto é, servidores, e em 1220 renunciou ao governo da obra que fundara. Ainda assim, poucos homens na história arrastaram tanta gente atrás de si. Para quem tem uma missão, seja na família, na empresa ou na comunidade, ficam algumas lições claras:
- A reforma começa por mim. Diante de uma Igreja em crise, ele não escreveu manifestos: converteu-se.
- Escutar antes de agir. Tudo começou de joelhos, diante de um crucifixo.
- Servir, não dominar. Toda autoridade cristã é serviço.
- Inovar dentro da fidelidade. O carisma mais novo do seu tempo foi submetido ao discernimento da Igreja.
- Ver as pessoas como dom. No seu Testamento, ele não diz que recrutou seguidores, mas que "o Senhor me deu irmãos".
O Ano Jubilar Franciscano
Entre 2023 e 2026, a família franciscana celebrou uma série de oitavos centenários: a Regra e o presépio de Greccio, em 2023; os estigmas, em 2024; o Cântico das Criaturas, em 2025. O ano de 2026, dos 800 anos da morte do santo, é o ápice desse caminho.
Na carta que abriu as comemorações, em janeiro, o Papa Leão XIV apresentou Francisco como mestre da paz: uma paz que é dom de Deus, recebida aos pés do Crucificado, e que nos chama a ser testemunhas desarmadas de Cristo. O Jubileu foi aberto em 10 de janeiro, na Basílica de Santa Maria dos Anjos, em Assis. Entre 22 de fevereiro e 22 de março, pela primeira vez na história, os restos mortais do santo foram expostos de modo público e prolongado, e receberam cerca de 400 mil visitas de peregrinos. Em 6 de agosto, o próprio Papa esteve em Assis com milhares de jovens. E neste ano o 4 de outubro volta a ser feriado nacional na Itália.
Como obter a indulgência plenária
Segundo o decreto da Penitenciaria Apostólica, é possível obter a indulgência plenária durante todo o Ano Jubilar. Não é preciso ir a Assis:
- Peregrinação: visitar qualquer igreja de um convento franciscano, ou qualquer igreja ou santuário dedicado a São Francisco, e ali participar de uma celebração jubilar ou permanecer um tempo em oração.
- Oração: rezar o Pai-Nosso, o Credo e uma invocação a Nossa Senhora.
- Condições habituais: confissão, comunhão e oração pelas intenções do Papa, com o coração desapegado de todo pecado.
- Quem não pode sair de casa, como idosos, doentes e seus cuidadores, pode unir-se espiritualmente às celebrações e oferecer a Deus suas orações e sofrimentos.
No Brasil, servem as igrejas dos frades menores, capuchinhos, conventuais e clarissas, além das paróquias e santuários de São Francisco, como o de São Francisco das Chagas, em Canindé (CE).
Chegar à festa com o coração preparado
No dia 3 de outubro, ao entardecer, as comunidades franciscanas celebram o Trânsito, a memória da passagem de Francisco para o Pai. No dia 4, a Igreja celebra sua festa, que este ano cai num domingo. É a ocasião perfeita para fazer a peregrinação jubilar com a família.
Mas uma festa assim merece preparação. Francisco não se tornou santo num dia: foi descendo do cavalo, um passo de cada vez, até se parecer com Cristo. Os nove dias que antecedem a sua Páscoa são um convite para darmos, nós também, alguns desses passos.
Reze a Novena de São Francisco no Seedtime
De 25 de setembro a 3 de outubro, reze conosco a Novena de São Francisco de Assis no Seedtime, o app de oração da Comunidade Semear. É um momento de oração por dia, no seu celular, onde você estiver, para chegar à festa de 4 de outubro com o coração renovado, neste Ano Jubilar tão especial.
Baixe o Seedtime e comece a novena
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Convide sua família e seus amigos para rezarem com você. Paz e bem!

